Dor do Normal

Hoje falo sobre o que é não pertencer 
 Aquilo que dizem ser tolice e que todos fingem não ver
Não é por amor à instabilidade ou porque nos apetece desistir
É a dificuldade em florir porque a única saída é fugir 
É sobre um mundo que fala diferente de nós 
E quanto mais definem metas, mais nos sentimos a sós 
É sobre um sentido de justiça que todos dizem apreciar
Mas na hora de serem alvos, são os primeiros a calar
É sobre uma veia sentimental que começa por ser benefício
Mas muita profundidade já vira malefício
Tudo na dose certa como um protocolo ou um bolo
Como se fôssemos marionetas ou porções de autocontrolo
Tanto se falou de inclusão, mas sempre tão pouca adaptação
O diagnóstico só serve para quem não lhes faz comichão
Estatutos sobem à cabeça, salários vestem novos corpos
Já se esqueceram que foi a brincar na terra que ganharam anticorpos 
Não aceito essa amnésia comprada 
É por isso que por vezes sou vista como a culpada 
Trago impressa em mim a minha infância 
Trago a almofada, o vaso de flores e a extravagância 
Parece birra, mas é dor do normal
Sou lobo na noite, sou choro vital
Dizem ser uma rotina construída de sacrifício
Porque dizem eles que trabalho deve ser vitalício
Mas eu não vivo por amor ao precipício 
Dizem assumir que a toxicidade é normal
Cuidado, não despertemos porque pode ser mortal
Há uma luta silenciosa entre mulheres que sorriem no ódio 
Agem como se tudo na vida fosse um pódio 
Por vezes começa com uma cor de batom assinalada 
Parece que é o semáforo vermelho que as faz parar na estrada 
Por vezes começa com uma ligeira falta de igualdade
Para depois terminar com a exclusão da liberdade 
Começa por uma personalidade livre, artística, dada ao elogio
E termina sendo a projeção do seu próprio vazio
Aprendam a lidar com a inveja e a ferida
Mas antes aprendam a lidar com a própria vida 
Mulheres não amadas, frustradas, derrotadas,
No meu conto são como fadas envenenadas 
Mas são só almas cansadas, curvadas
Também elas anuladas, porém ameaçadas 
Eu não tenho que saber aguentar 
Eu só não me posso esquecer de querer voar
Nunca entendi a linguagem do sistema
E enquanto tento entender, escrevo mais um poema
Quiseram que andasse em linhas direitas
Mas as pernas tremiam como linhas desfeitas
Dizem eles que temos de saber viver 
Ao mesmo tempo que aprendemos a crescer 
Uma normalidade corrosiva, nociva
Não com mais credibilidade por ser massiva 
Não é sobre o que acontece, é sobre a sensação que fica 
De ter deixado escapar uma pintura tão rica 
De ter dado tanta alma a um tempo vazio
Todos saíram da sala e só restou o frio 
Restou uma vida que aprendeu a recomeçar 
E ainda queria ser eu o orgulho do meu lar 
Sobre mim, esta é a expressão que não consigo calar:
Comecei a dançar antes de saber andar
Não quis conhecer o mundo antes de me conhecer a mim
Quis bailar ao som de uma música antes de ser frenesim
Não quis saber de contexto ou ordem
Depois entendi que também o mundo é desordem
Tornei-me frágil num mundo que julgava ser bonito
Mas sou maior do que esse mundo quando ainda me permito

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Zaask

Escritora e Fotógrafa